Estratégia e histórias de marca

Como passar de um target abstrato para uma personagem particular?

Converta uma faixa demográfica em personagem projetada com escolhas e contexto. Preserve a diferença entre construção criativa e evidência sobre consumidores.

Revisado em

Adaptação editorial da Storytellers a partir de O Guia Completo do Storytelling, de Fernando Palacios e Martha Terenzzo. Exemplos hipotéticos e exercícios foram elaborados para esta adaptação. A coautoria da obra não implica redação ou aprovação pessoal desta versão pelos coautores.

Assuntos: Personificação

Um intervalo descreve pessoas; uma personagem precisa escolher uma vida.

Personagem particular é uma construção narrativa com condições de vida definidas que permitem acompanhar desejos e decisões. Fernando Palacios e Martha Terenzzo a distinguem do target descrito por intervalos e médias. A passagem exige escolhas criativas explícitas e referências pertinentes, mantendo separado o que foi pesquisado, o que foi projetado e o que a história permite demonstrar.

Nesta leitura

Por que uma faixa etária não basta para escrever uma cena?

Hipótese de briefing: uma equipe recebeu o target “adultos de 28 a 32 anos que querem autonomia”. Já acrescentou gostos e hábitos, mas ninguém consegue decidir onde a personagem mora ou o que fará diante de uma despesa inesperada. A ficha mistura médias e alternativas até produzir alguém que nunca precisa escolher.

Uma faixa demográfica descreve um conjunto; uma cena precisa acompanhar alguém situado fazendo uma escolha. O trabalho de criação é construir essa particularidade sem apresentar a personagem como retrato comprovado de todas as pessoas do segmento.

Que deslocamento o Guia propõe?

Fernando Palacios e Martha Terenzzo contrapõem o intervalo abstrato à pessoa particular em O Guia Completo do Storytelling. A personagem tem nome, uma idade e condições de vida determinadas. Sua biografia permite imaginar uma experiência que o rótulo de público não oferece sozinho.

Essa contribuição é de composição. Escolher uma idade ou uma moradia não prova que o público típico vive dessa maneira. Os dados de pesquisa continuam com seu alcance; a personagem é uma construção que usa referências e decisões criativas para sustentar a história.

A crítica de 2008 à comunicação dirigida apenas a targets ajuda a situar o problema que a composição procura resolver; imaginar uma pessoa continua diferente de provar um perfil de público.

Pesquisar mais ou preencher a ficha criativamente?

Pesquisar é uma resposta forte quando falta conhecer condições, linguagem e decisões das pessoas reais. Projetar criativamente é uma resposta forte quando já se sabe o que o universo pretende explorar e é preciso escolher uma experiência particular. Os trabalhos podem alimentar um ao outro.

O limite da pesquisa é imaginar que uma média produz automaticamente uma pessoa. O limite da invenção é tratar conveniência criativa como observação do consumidor. A distinção do Guia ajuda a decidir o que precisa de evidência e o que precisa ser assumido como escolha de autoria.

Como tornar a personagem capaz de decidir?

No briefing hipotético, uma personagem pode ter 30 anos, morar com uma irmã e tentar guardar recursos para uma mudança. Esse recorte já permite imaginar tensões. Nada disso deve ser anunciado como descoberta sobre todos os consumidores de 28 a 32 anos.

Em seguida, procure uma decisão em que condições e desejo entrem em relação. Se todos os atributos permanecem decorativos, a ficha ainda não oferece matéria narrativa. O quadro é uma aplicação desta página para tornar explícita a procedência de cada escolha.

CamadaO que registrarO que não confundir
Referência pesquisadaFonte, contexto e alcanceUma ocorrência com toda a população
Escolha criativaCondição assumida para esta personagemProjeção com dado observado
Decisão narrativaDesejo, alternativas e consequênciaLista de gostos com experiência vivida
Revisão com públicoLeituras e estranhamentos observadosReconhecimento parcial com representatividade estatística

Como verificar se a particularidade virou estereótipo?

Leia a cena e pergunte se a pessoa age por uma situação compreensível ou porque a ficha pressupõe que “gente desse perfil é assim”. Procure também quem ficou fora do recorte e se a peça está prometendo falar por todos.

Teste uma escolha com pessoas do público pertinente, registrando o que elas reconhecem e o que estranham. Se a demanda é descrever um mercado, mantenha a pesquisa em sua forma adequada. A personagem ajuda a compor uma experiência; ela não substitui segmentação nem comprova comportamento de consumo.

Leituras relacionadas