Personagens e tensão
Como criar tensão a partir da distância entre objetivo e obstáculo?
Construa tensão ligando objetivo, obstáculo e ação. Aplique a distância entre desejo e realização sem fabricar perigo ou colocar o produto no centro.
Revisado em
Adaptação editorial da Storytellers a partir dos manuscritos consultados de O Guia Completo do Storytelling, de Fernando Palacios e Martha Terenzzo. As aplicações e os exercícios desta página são propostas da adaptação; os exemplos hipotéticos estão identificados no texto.
Assuntos: Tensão
Um obstáculo importa pelo desejo que ele põe em risco.
Tensão narrativa é a relação entre o objetivo do protagonista e os obstáculos que dificultam sua realização. Na formulação de Fernando Palacios e Martha Terenzzo, essa distância provoca ações e escolhas que o público pode acompanhar. Aplicá-la exige mostrar o desejo, o impedimento e sua consequência, sem confundir uma lista de dificuldades com um percurso ou inventar riscos numa história real.
Nesta leitura
Por que muitos obstáculos ainda não criam tensão?
Situação hipotética: uma bibliotecária precisa abrir uma atividade acessível aos leitores, já marcada na sala da biblioteca. O vídeo relata falta de verba, atrasos e equipamentos antigos, mas não mostra como essas condições afetam a participação. A equipe já tornou a trilha mais intensa e reduziu a duração. A montagem continua parecendo um relatório porque o público não acompanha o que a bibliotecária tenta realizar.
Obstáculos criam tensão quando afastam alguém de um objetivo reconhecível e exigem uma ação. Uma lista de dificuldades pode informar o esforço de uma equipe sem permitir acompanhar o que estava em jogo para uma pessoa.
Como o Guia define a origem da tensão?
Fernando Palacios e Martha Terenzzo descrevem em O Guia Completo do Storytelling a tensão como a distância criada pelos obstáculos entre o protagonista e seu objetivo. O desejo põe a pessoa em movimento; a dificuldade torna necessário escolher como agir.
A imagem da distância é uma relação de composição, não uma escala numérica de suspense. O obstáculo interessa pela ação que impede ou modifica. Sem objetivo, um atraso é apenas um fato. Com um objetivo compreensível, o mesmo atraso pode obrigar a protagonista a refazer uma escolha.
Aumentar o risco ou explicar melhor o objetivo?
Aumentar o risco pode ser uma decisão legítima numa ficção em que as consequências pedem intensificação. Esclarecer o objetivo pode bastar quando o material já contém dificuldade relevante, mas o público não consegue reconhecê-la. Cada resposta depende do projeto e do pacto factual.
No vídeo real de uma biblioteca, não cabe inventar uma ameaça de fechamento só para ganhar tensão. Tampouco basta escrever “era muito importante”. No exemplo hipotético, a bibliotecária tenta abrir a atividade acessível já marcada. A falta do equipamento importa pelo que impede naquela participação. Numa produção real, essa ocorrência e suas condições precisam ser apuradas.
Por que usar um produto raramente basta como objetivo?
O Guia alerta que usar um produto, por si só, costuma ser pouco para sustentar a motivação de um protagonista. A pessoa geralmente procura realizar algo que o produto ajuda, atrapalha ou torna possível. A pergunta de composição é o que ela deseja alcançar por meio daquele uso.
Na mesma atividade hipotética, instalar o equipamento é uma etapa. O objetivo da bibliotecária é permitir que os leitores participem da atividade marcada, inclusive aqueles que a solução disponível deixa de fora. A ferramenta ganha função pelo que torna possível nessa experiência. Não é necessário personificá-la nem trocar a atividade por outro serviço da biblioteca.
Como revisar objetivo, obstáculo e resposta?
Escolha um trecho e escreva as relações abaixo. Este quadro aplica a definição dos autores; não pretende medir a intensidade emocional que cada pessoa sentirá.
| Elemento | Pergunta de revisão | No exemplo hipotético |
|---|---|---|
| Objetivo | O que a pessoa procura realizar? | Abrir uma atividade acessível aos leitores |
| Obstáculo | O que impede essa ação? | A solução disponível exclui parte dos participantes |
| Consequência | O que acontece se nada mudar? | Parte do público não consegue participar |
| Resposta | Que escolha a pessoa faz? | Reorganiza a atividade com os recursos disponíveis |
O que fazer com um relato que ainda não tem tensão?
No exemplo da biblioteca, confira a mesma ocorrência do começo ao quadro: abrir a atividade acessível, identificar quem ficaria sem participar e acompanhar a reorganização feita pela bibliotecária. Num relato seu, escolha uma pessoa, formule o objetivo em verbo de ação e procure a dificuldade que o tornou incerto. Mostre resposta e consequência; se vários obstáculos fazem a mesma função, selecione os que mudam a decisão e conserve o restante na documentação.
Nem toda entrega precisa gerar tensão. Um aviso de funcionamento pode exigir clareza direta. Se você só tem dados gerais e não conhece uma experiência, procure uma ocorrência antes de dramatizar. O procedimento serve para tornar uma ação acompanhável, sem fabricar perigo ou prometer que toda audiência ficará envolvida.